Pesquisar Meio Ambiente Astronomia Anuncie Dúvidas Notícias Home
Desaparecidos Emprego Endereços Úteis Bate Papo Fale Conosco

 


Retorno
Conservadorismo

O conservadorismo é um termo usado para descrever posições político-filosóficas, alinhadas com o tradicionalismo e o transformação gradual, que em geral se contrapõem a mudanças abruptas (cuja expressão máxima é o conceito de revolução) de determinado marco econômico e político-institucional ou no sistema de crenças, usos e costumes de uma sociedade.

A base do conservadorismo é o pessimismo antropológico, a idéia de que o homem é naturalmente egoísta. Ao contrário dos progressistas, que consideram que o homem é naturalmente bom, racional e feliz e que é a sociedade que o torna mau e infeliz (e, portanto, para melhorar o homem, basta melhorar a sociedade), para os conservadores é a sociedade e os seus hábitos e tradições que moderam e limitam a sua perversidade natural. Assim, para os conservadores, o indivíduo só existe plenamente integrado numa sociedade e numa tradição – o indivíduo abstrato não existe: nós só somos o que somos em função da herança (material e cultural) que recebemos dos nossos antepassados (“Não são os indivíduos que formam a sociedade, mas a sociedade que forma os indivíduos”, diz Louis de Bonald).

Esta submissão do indivíduo à sociedade, à primeira vista, poderia aproximar os conservadores dos socialistas e comunistas, mas, para os socialistas, a “sociedade” é entendida como um processo, um devir constante, enquanto para os conservadores, a “sociedade” deve basear-se na permanência de valores e na instituições.

Para os conservadores, se os homens existem dentro de uma sociedade que "funciona", não faz sentido elaborar projetos de sociedade ideal. Assim, ao contrário das várias correntes liberais e socialistas, que têm todas elas uma concepção de sociedade (seja ele o capitalismo liberal, o Estado-providência, o regime soviético, a autogestão, etc.), os conservadores defendem que cada povo deve viver segundo o modelo existente.

Os conservadores consideram que o individualismo e o sonho da sociedade ideal pode levar ao anarquismo ou ao estatismo e ao Totalitarismo): para eles, o desaparecimento da sociedade existente pode gerar um vazio que a ser preenchido pela máquina estatal.

Há conservadores que se aproximam do tradicionalismo, por exemplo quando se opõem à representação política individualista, baseada no princípio “um homem, um voto”, baseando-se no reconhecimento exclusivo do Estado e do Indivíduo, e ignorando os corpos intermédios. Em alternativa ao sufrágio igualitário, direto e universal, os tradicionalistas têm lutado por sistemas de representação de grupos (e não dos indivíduos), defendo representações não ideológicas, como a representação municipal ou sindical, o mesmo número de deputados por região (independentemente da população), etc. Hoje em dia, porém, os conservadores tendem sobretudo a defender o que está, como a defesa dos lordes hereditários pelos conservadores britânicos, ou do Colégio Eleitoral (em que o presidente é, formalmente, eleito pelos estados e não pelos indivíduos) pelos conservadores norte-americanos. Além disso, nota-se numa certa tendência conservadora que define “bom governo” como “governo que tem coragem para tomar medidas impopulares”.

O pessimismo dos conservadores leva-os a ter uma atitude ambígua perante o poder do Governo: por um lado, porque acreditam que a maior parte dos problemas não têm solução, são pouco adeptos da intervenção governamental (por vezes, ainda menos do que os liberais); mas, por outro, exatamente porque acreditam que qualquer coisa que se faça implica sempre desagradar a alguém, acham que, nas poucas situações em que o governo intervenha, deve intervir com força e autoridade, estilo “murro na mesa”, sem perder grande tempo com “compromissos” ou “discussões”.
QA

Evolução histórica
Em termos históricos, o conservadorismo, foi das doutrinas que mais evoluiu desde o seu aparecimento. Enquanto o socialismo e o liberalismo defendem idéias ainda muito parecidas com as dos fundadores, o moderno conservadorismo já pouco tem a ver com a defesa da ordem medieval dos primeiros conservadores, como Burke, De Maistre ou Bonald. Na sua evolução, poderemos detectar várias fases:

a) A partir da Revolução Francesa e durante grande parte do século XIX, os conservadores defendiam a ordem tradicional do “trono e do altar” – os privilégios da Monarquia, da Aristocracia e da Igreja contra o liberalismo e a democracia;

b) No fim do século XIX, princípio do século XX, alguns conservadores passaram a voltar-se para o nacionalismo (com Disraeli, a defesa do Império Britânico passou a ser a principal bandeira do Partido conservador; em França, a Acção Francesa de Maurras tinha como principal bandeira a reconquista da Alsácia-Lorena); outros, para o catolicismo social como alternativa ao individualismo capitalista e ao coletivismo comunista;

c) Nos anos 20/30, em muitos países, o conservadorismo continental tornou-se muito próximo do fascismo, partilhando muitos dos temas: autoritarismo, antiliberalismo, anticomunismo, nacionalismo, embora freqüentemente desconfiasse do seu excessivo estatismo e populismo;

d) Após a Segunda Guerra Mundial, o conservadorismo perdeu muita da sua especificidade ideológica, tornando-se uma espécie de liberalismo econômico (relativamente moderado) conjugado com um política externa “forte”, para uns, “militarista” e “belicista”, para outros (por oposição ao antimilitarismo e antiimperialismo dos liberais clássicos)

e) Nos anos 60/70, por reação aos protestos estudantis dá-se um renascimento de um conservadorismo mais tradicional, defensor da família, da moral, autoridade, “lei e ordem”, etc. Inclusivamente, muitas pessoas até então de esquerda passaram a considerar-se conservadoras nesse aspecto (os chamados “neo-conservadores”)

Hoje em dia o conservadorismo tende a caracterizar-se por: a defesa “lei e da ordem” e dos valores tradicionais, religiosos e familiares; uma postura militarista em política externa; e uma economia liberal. Diga-se que a defesa do liberalismo econômico, por vezes, leva alguns conservadores a dizerem coisas que são a antítese do conservadorismo tradicional – p.ex., quando Thatcher disse: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias” (em compensação, um dos seus ideólogos emendou a mão escrevendo um texto aonde afirmava que “a sociedade é o berço e não o túmulo da individualidade”, i.e., a posição conservadora clássica).


Conservadorismo e Economia: diferentes tendências
Diferentes tendências conservadoras têm diferentes opiniões face ao capitalismo e ao liberalismo econômico: por um lado, o seu antiindividualismo e um espírito aristocrático de “noblesse obligé” pode levá-los a ser anticapitalistas e antiliberais; por outro, a sua defesa da autonomia dos pequenos grupos pode levá-los a defender a autonomia da empresa, logo, a uma posição pró-capitalista. Além disso, os conservadores têm um historial de distinção entre dois tipos de riqueza – a riqueza “sólida” (como a terra, ou, pelo menos, fábricas), “boa”, que está associada a uma idéia de permanência e estabilidade, e a riqueza “fluida” (como o dinheiro ou acções), “má”, que, segundo Edmund Burke “está sempre pronta para a aventura”. Hoje em dia, esta distinção nota-se sobretudo na ala mais nacionalista e antiglobalização do conservadorismo (p.ex., Pat Buchanan nos EUA), que faz freqüentemente a defesa da indústria e da agricultura contra os “banqueiros internacionais”, as “grandes empresas multinacionais sem rosto”, os “especuladores bolsistas”, etc.

Numa versão simplista, poderemos distinguir duas grandes tendências:

Os conservadores da Europa Continental são (ou melhor, eram) anticapitalistas e, sobretudo, antiliberais. O seu ideal é (ou era) uma sociedade de tipo paternalista em que “os pobres respeitam os ricos e os ricos tratam bem dos pobres”. Consideram que foi o capitalismo liberal que deu origem ao socialismo, já que o seu espírito individualista, ao dissolver os laços sociais, acabou, quer com o espírito de responsabilidade da elite pelo bem-estar do povo, quer com a deferência desta para com a elite. Assim, os pobres, sem a proteção que os ricos, tradicionalmente, lhe prestavam, e também sem a tradicional submissão aos seus “superiores”, caíram, inevitavelmente, nos braços dos socialistas e comunistas (de nova, a típica idéia conservadora que o individualismo conduz ao estatismo).

Os conservadores continentais foram bastante influenciados pelo catolicismo social, que (no século XIX) defendia um regresso a esse paternalismo, em que a empresa fosse como uma família e o patrão fosse como um pai para os empregados.

Freqüentemente os conservadores continentais tentaram a aliança nobreza-povo contra a burguesia: em Portugal, as guerrilhas miguelistas apoiavam-se nos camponeses pobres contra a classe média rural (pró-liberal); em França, os chamados Ultras (i.e. os que consideravam a Restauração de Luís XVIII demasiado moderada) por vezes defendiam que, enquanto houvesse parlamento, era melhor que fosse eleito por sufrágio universal do que por sufrágio censitário (já que “a classe média era a única perigosa”); na Alemanha, Bismark lançou as primeiras medidas de proteção social e tentou uma aliança entre o seu Partido Conservador e um pequeno partido socialista, liderado por Lassalle (dissidente do SPD) contra o Partido Liberal. O final do século XIX e o principio do século XX foi fértil em tentativas de síntese conservadorismo-socialismo, que influenciaram o fascismo: um exemplo poderá ser a “Revolução Conservadora” alemã dos anos 20, que defendia, entre outras coisas, o “socialismo prussiano”, isto é, um “socialismo” assente, não na luta de classes, mas nas tradições prussianas de disciplina e hierarquia (Oswald Spengler, “Prussianismo e Socialismo”).

Como exemplos da tradição intervencionista do conservadorismo continental temos a “economia social de mercado” dos democratas-cristãos, as nacionalizações de De Gaulle, ou corporativismo de Franco e Salazar. O conservadorismo asiático segue o mesmo modelo (talvez com uma carga dirigista ainda maior): por exemplo, as “politicas industriais” do Partido Liberal Democrata japonês (apesar do nome, um dos menos liberais dos modernos partidos conservadores) ou dos regimes militares que governaram a Coréia do Sul (que chegaram a estabelecer Planos Quinquenais); nos últimos anos, o primeiro-ministro malaio, Mahatir Moamed tem feito a propaganda de um “modelo asiático”, alternativo ao liberalismo anglo-saxônico.

No entanto, esse intervencionismo é muito diferente do dos socialistas: enquanto estes defendem o intervencionismo para “tirar dos ricos e dar aos pobres”, os “conservadores-intervencionistas” (tal como os fascistas) defendem-no numa perspectiva de “vamos todos trabalhar em conjunto, para ficarmos todos a ganhar”. Aliás, as políticas dirigistas dos governos conservadores por vezes até estão associadas ao domínio da economia por grandes grupos econômicos quase-mopolistas (olhe-se para a Alemanha do Kaiser, para Portugal salazarista, ou para os modernos Japão ou Coréia do Sul).

No pólo oposto, temos o conservadorismo anglo-saxônico, que, por regra, é economicamente liberal: ao contrário dos “conservadores antiliberais” e dos “liberais anticonservadores” que opõem feudalismo e capitalismo (tomando partido por um ou outro), os “conservadores liberais” defendem o capitalismo na medida em que o acham a continuação do feudalismo. Para eles, a empresa capitalista (nomeadamente a empresa gerida pelo dono, por oposição à sociedade por ações) é o mais parecido que, no mundo moderno pode existir, com um domínio senhorial. Também a idéia do mercado como uma “ordem espontânea” vai de acordo com a idéia conservadora de que as melhores instituições são a que se desenvolvem gradualmente, e não de acordo com “projetos”.

No caso do conservadorismo americano, esse liberalismo é agravado pelo fato de todas as ideologias americanos serem mais “libertárias” que os seus equivalentes europeus (p.ex., enquanto, durante muitos anos, a extrema-esquerda européia foi marxista-leninista, nos EUA o predomínio sempre foi para correntes anarquistas ou anarquizantes)

Mas, também este “liberalismo” é diferente do dos liberais: enquanto estes defendem o liberalismo econômico em nome dos direitos do indivíduo contra a sociedade, os “conservadores-liberais” defendem-no, em larga medida, porque acham que premeia o trabalho árduo e a poupança, contribuindo, assim, para criar uma cultura de esforço, disciplina, sacrifício e comprimento do dever.

Tanto conservadores anglo-saxônicos como liberais afirmam que o governo não tem capacidade para resolver os problemas econômico-sociais, mas, enquanto para os liberais o problema está no sujeito (i.e., são cépticos face ao “governo”), para os conservadores o problema está no predicado (i.e., são cépticos face à possibilidade de “resolver os problemas econômico-sociais”)

Ao contrário do conservadorismo continental, o conservadorismo anglo-saxônico tradicionalmente simpatizava com a idéia de uma aliança nobreza-burguesia, que se expressava na defesa dum constitucionalismo moderado, combinando o sufrágio censitário, a representação aristocrática (estilo Câmara dos Lordes) e a manutenção de algumas das prerrogativas reais – o seu ideal era, obviamente, a não-escrita constituição britânica (idéias que inspiraram muito do liberalismo cartista - i.e. não revolucionário - continental)

Não é raro, entre os conservadores de tipo anglo-saxônico, a idéia de que o liberalismo precisa de ser protegido por um certo conservadorismo: p.ex., muitos (nomeadamente os chamados neo-conservadores) defendem a tese que a democracia parlamentar e o capitalismo liberal não são “naturais” (como freqüentemente os liberais assumem, sobretudo acerca do capitalismo), mas que requerem um ambiente cultural propício para se estabelecerem e desenvolverem – veja-se, por exemplo, as teorias de Francis Fukuyama acerca da “confiança” ou de Michael Novak acerca do contributo do catolicismo para o desenvolvimento do capitalismo (numa aparente tentativa de refutação da tese de Weber). Esses autores, freqüentemente, chegam a conclusões pessimistas, considerando que o próprio sucesso do capitalismo, com a mobilidade individual (social e geográfica) que acarreta, enfraquece a coesão social, e, portanto, a manutenção e transmissão dos próprios valores que o possibilitam.

Claro que é muito mais complicado do que uma simples separação geográfica: hoje em dia, cada vez mais os conservadores continentais vão-se convertendo ao liberalismo econômico anglo-saxônico (veja-se o apoio de elementos da CDU alemã à “flat tax”, ou a defesa do liberalismo econômico por Nicolas Sarkozy na UMP francesa).

Por outro lado, o conservadorismo anglo-saxônico também não é uniforme: o Partido Conservador britânico tem sectores aristocráticos que combinam posições fortemente conservadores em matéria de moral, “lei e ordem” e integração européia com posições por vezes bastante moderadas em economia. Nos anos 20/30, muitos intelectuais conservadores, como G.K. Chesterton ou T.S. Eliot animaram a Liga Distributista, que defendia o regresso a uma sociedade de pequenos proprietários através da restauração das corporações (que impediriam as grandes empresas de tirarem mercado às pequenas). No século XIX, esteve na moda o chamado “socialismo Tory” de autores com John Ruskin, que se considerava, ao mesmo tempo, comunista e conservador…

Mesmo nos Estados Unidos, cujos conservadores, pelos padrões europeus, seriam mais “liberais” do que “conservadores”, há excepções: os paleoconservadores de Pat Buchanan (i.e., os isolacionistas) são protecionistas e recorrem freqüentemente a um populismo anti-"grande capital"; quanto aos seus rivais, os neoconservadores de Irving Krsitol (i.e., os defensores do papel dos EUA como líderes da “comunidade internacional”) são defensores de um Estado-Providência moderado – os “neos” (muitos deles ex-esquerdistas) consideram que o mal do Estado Providência não está na intervenção estatal per si, mas no fato desta estar a minar os valores tradicionais, por isso não pretendem aboli-lo mas apenas reformá-lo, a fim de eliminar os seus aspectos negativos (p.ex., substituindo os subsídios estatais aos pobres por subsídios estatais a grupos de caridade religiosos – as “faith-based initiatives” – que combinem a assistência aos pobres com a formação moral destes).


Bibliografia
Nisbet, Robert, "O Conservadorismo", Ed. Estampa
Touchard, Jean, "História das Ideias Politicas",Publicações Europa-América
 


 
 

Copyright © 1999 [Ache Tudo e Região]. Todos os direitos reservado. Revisado em: 11 janeiro, 2009. Não nos responsabilizamos pelo conteúdo expresso nas páginas de parceiros e ou anunciantes. (Privacidade e Segurança) Melhor visualizado em 1024x768